domingo, 11 de julho de 2010

Be Happy



" A eterna insatisfação é muitas vezes confundida com ambição. Achamos que temos direito a querer tudo: um emprego melhor, um carro melhor, uma casa melhor, um carro melhor, roupas melhores. De facto, a ambição combate o comodismo, é legitima e, em certa medida, saudável. Mas quando já temos tudo (e o "tudo" é sempre relativo) e continuamos a achar que é nada, já é sinal que temos dificuldade em ficarmos satisfeitos com aquilo que conseguimos e que, daí a nada, vamos elevar ainda mais a fasquia e querer ainda outra coisa qualquer. E assim sucessivamente. Acabamos por valorizar pouco o que temos e sobrevalorizar sempre aquilo que não temos. Tendemos, também, a olhar pouco á nossa volta e repararmos que muitas pessoas têm menos que nós. Muito menos, ás vezes. Curiosamente, em alguns casos, são essas mesmas pessoas que parece mais felizes. Talvez porque dão mais valor ao que conseguem alcançar, talvez porque lhes custe mais alcançar, talvez porque valorizem, diariamente, pequenas vitórias. Talvez porque valorizam mais as pessoas e menos as coisas. Claro que cada um de nós tem a sua noção de felicidade, mas uma coisa é certa, não é possível estarmos sempre felizes mas, da mesma forma, é impossível estarmos sempre descontentes. "

by Teresa d'Ornellas in revista Saber Viver Julho 2010
Photo by helenesse in deviantart

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Benditos os que não confiam a vida a ninguém




Sou um poço de gestos que nem em mim se esboçaram todos, de palavras que nem pensei pondo curvas nos meus lábios, de sonhos que me esqueci de sonhar até ao fim.
Sou ruínas de edifícios que nunca foram mais do que essas ruínas, que alguém se fartou, em meio de construí-las, de pensar em que construía.
Não nos esqueçamos de odiar os que gozam porque gozam, de desprezar os que são alegres, porque não soubemos ser, nós, alegres como eles… Esse sonho falso, esse ódio fraco não é senão o pedestal tosco e sujo da terra em que se finca e sobre o qual, altiva e única, a estátua do nosso Tédio se ergue, escuro vulto cuja face um sorriso impenetrável nimba vagamente de segredo.

Benditos os que não confiam a vida a ninguém."


by Fernando Pessoa in Livro do Desassossego

Photo by Darkbloodyeyes in Deviantart