quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Megafone 5



O espectáculo foi fantástico. Com tudo o que o João Aguardela merecia. Foi emoção.
O João continua vivo entre nós... visitem-no :

http://www.aguardela.com/index_.html


"A noite em que a música continuou a festejar João Aguardela

Gaiteiros de Lisboa, OqueStrada e Dead Combo estiveram no Centro Cultural de Belém para recordar João Aguardela. A Naifa também. E os companheiros do músico, desaparecido em Janeiro, atiraram a sala para horas incertas, tantos foram os golpes no peito.

Centro Cultural de Belém, Lisboa, 4 de Novembro de 2009

Há uma ausência tão pesada sobre a luz vazia que mal sabemos onde enfiar as mãos, como respirar, se devemos espreitar. A Naifa em palco feita trio, assim, trio, sem João Aguardela de cigarro na boca, à espera de entrar pela música adentro, como o lembramos do Theatro Circo, anos passaram já, quem diria, aquelas cordas feitas corpo fundo. Maria Antónia Mendes, Mitó, olha para aquele espaço, canta, olha, canta: «Fechas a porta à chave com duas voltas e sais». Isto ecoa numa metafísica imprecisa, violenta, numa turbulência marinheira que se agiganta – que festa é esta que vai dentro em agonia?



Aquela voz enfiada em negro, o negro também da guitarra e da bateria – A Naifa em trio, A Naifa em trio, isto vai pesando mais do que a conta – que nos puxa o coração pela boca e o planta por cima do palco, a palpitar de azul, de vermelho, tantas cores!, coração mirrado dentro de um outro, maior – sabe-se lá se de ferro forjado se de plástico, se de carne, que importa?, derrete tudo na forja. Meteram-no ali os anjos que nos esperavam à porta, os anjos esperam sempre, esperam tanto, coitados, mesmo à porta do CCB – os anjos: «Dá deus nozes a quem não tem dentes», seco. O que se reponde a isto, A Naifa ali, feita trio? Um andor que desce a rua até ao palco e nós por baixo, vamos tantas vezes por baixo e às tantas falha-nos o ombro, a arma, sabe-se lá.



Está A Naifa em trio e o palco dividido em luzes, quatro, vindas de cima, como pode ser-se maldoso a este ponto com os apaixonados – quantos são, quem será, quem se converteu nos anos de Sitiados, Linha da Frente, Megafone, este gume, quem é puro e quem é criança, Sodoma a arder é isto, camarada, uma cinza por dia, o Aguardela dos discos na prateleira e o Aguardela da memória dos palcos e da televisão, aqueles cortes de cabelo, ainda hoje somos capazes daqueles cortes, daquela irreverência, entenda-se como aprouver. Isto em trio não pode ser, entra a Sandra do acordeão e as palmas, o simbolismo!, assim ninguém aguenta, Sandra Baptista no lugar do companheiro de uma vida, de baixo a tiracolo, vai tocar com todas as lágrimas que perdeu e o povo deste lado, alguém nos acuda.



É um concerto carregado, este, assim se previa. Cada verso ganha novo alcance – os álbuns a passar em marcha pelo alinhamento –, cada toque de Mitó em Sandra Baptista, cada olhar, cada nota que sai da guitarra portuguesa de Luís Varatojo, cada impulso de Paulo Martins, cada pequena história. Tanto que se poderia dizer, à distância, língua incauta, que esta ou aquela opção de cenário, de encenação, teria mais de despropositado que o desejável. A resposta estaria na classe que reconhecemos a A Naifa, impossível de corromper com juízos que não vêm ao caso, menos ainda a um relato que treme. Ao palco subiram os amigos: Rodrigo Dias, que acompanhou A Naifa nos espectáculos que se cruzaram com os tempos de fraqueza de Aguardela, no baixo; Samuel Palitos, que tocou com Aguardela em todos os seus projectos (os quatro, A Naifa incluída, numa vez sem réplica, na Festa do Avante! de 2008).



Os poemas com pólvora serviram de rastilho a palmas e palmas – a quem se agradecia, afinal, o corpo no embate de cada par de mãos, a sala a tender para a enchente? Havia ali mais de 20 anos de música a festejar, que é o mesmo que dizer que se festejava o Aguardela, as palmas eram para o Aguardela, aquele quadrado de luz no palco que tinha no seu limite, não no centro, Sandra Baptista, o Aguardela todo ali, quem diria, vê-se bem daqui, décadas de discos e bares e estádios, coração único, as fronteiras da música tradicional a esbaterem, o peito leva tanta coisa dentro que nem se sabe ao certo o que é, quantas coisas são, que são, que importância têm, e às tantas o Aguardela salta desta mistela e ferve. Um rapaz a arder em cima do muro, como diz a canção, que comoção, porra, até as lágrimas chegam aos duros, impossíveis de segurar, são só homens, são apenas mulheres, que é isto dos outros que foram capazes de lhe sabotar o corpo, que é isto, quem ampara quem, que jogo este.



Acabou-se a música para a noite e o pais de Aguardela são chamados ao palco, naquele onde esteve quem lá não estava, a força que vem de dentro disto e abate por fora aquele casal que agradeceu, tanta gente, o João gostou, onde quer que esteja, ele que gostava tanto de música, dedicou-se-lhe tanto, isto é dizer toda a vida, o João, dito assim é mais um soco no estômago, tanta gente, tantos nós quantas gargantas eram naquela sala, à esquerda e à direita, que situação esta, havemos de sair todos pela porta dos fundos das convicções, nem palavra, parecia que ali não estava vivalma a dirigir-se para os carros, nem palavra, alguns até casa, com certeza, nem palavra, apenas um gemido de massa que se move compacta na mesma direcção, acabou, que faremos mais aqui.



O espectáculo inteiro, promovido pelo Megafone 5, associação de amigos e admiradores que está aí para recordar sempre João Aguardela (1969-2009), a sua relação com a música, entre a tradicional e esta dos nossos dias, com prémio instituído em parceria com SPA para entregar anualmente a quem seja, mais concertos destes, aqui e ali, o espectáculo inteiro, dizíamos, teve ainda os Gaiteiros de Lisboa, a abrir, OqueStrada e Dead Combo (vejam-se as sensibilidades múltiplas). Para os mostrar nesta noite de Belém, trouxemos fotografias – assinadas por Fábio Teixeira. A Naifa ocupará por tanto tempo a memória, afectá-la está melhor dito, que merece o destaque das linhas todas."












in http://www.rascunho.iol.pt/artigo.php?id=2903





Nenhum comentário: